segunda-feira, 6 de março de 2017

A alça do caixão

Hoje foi meu dia de segurar um caixão. Sabe aquela alça do lado do caixão que serve para as pessoas carregarem ele no momento final? Hoje eu fui um dos escolhidos. Uma coisa eu posso te dizer: Não há glória alguma nisso.



                Eu nunca gostei de funerais, acho que tenho alguns problemas com despedidas, mas toda vez que eu ia a algum velório, seja de parentes ou de pessoas próximas aos meus amigos eu notava sempre quem ia levar o caixão. Na maioria das vezes eram homens. Filhos, netos, sobrinhos, irmãos, sempre algum familiar que sabia que teria que, de certa forma, segurar a barra do resto da família e deixar eles chorando enquanto fazem o caminho fúnebre até a cova. Acredito que tem muito a ver com coragem, porque ser o último a carregar uma pessoa importante para você pode não ser uma tarefa muito fácil. Na verdade, não existe nenhuma facilidade nisso e hoje eu pude confirmar. A primeira parte é se desprender do corpo, aceitar que aquilo que está deitado, imóvel e sem nenhum suspiro, não passa de alguém que já foi e deixou um pedaço físico para trás, seja para onde for que a grande parte tenha ido. Isso varia de pessoa para pessoa, comigo esse não foi um problema. Minha última lembrança não poderia ser melhor. Um “eu te amo” carinhoso com um sentimento de “te vejo em breve” seguido de um abraço ímpar entre neto e avó. Espero que vocês tenham sentido isso um dia. Então a primeira parte foi fácil, não tanto como a segunda, que é compreender o que foi deixado para trás. Não estou falando só de pessoas, estou falando de elos. Essa é a parte onde você começa a enxergar o que foi quebrado. Em alguns casos, famílias inteiras são separadas por conta desses fins, e é triste saber que um almoço que reunia várias pessoas em volta de uma, fica distante quando essa pessoa não está. A terceira parte é a responsabilidade, e foi aí que eu me vi em todos os velórios que fui. Como eu disse, não há glória nisso, e é aí onde eu quero chegar: Tampouco é fácil. Como segurar um sexto da pessoa no seu último momento e porque tem que ser você? Quem você é para dar os últimos passos em direção ao adeus, quando não existe só você ali? Você está apto a aguentar o peso? Você consegue dizer adeus? A resposta não é simples. Nós não estamos nunca preparados.


                Estou em casa. Ainda consigo sentir o peso no meu ombro. Eu não sei se quero me livrar dessa dor ainda. Na verdade, é uma dor que acumula com muitas outras. O que me faz pensar que todo dia carregamos um caixão diferente. Com pesos diferentes, com histórias diferentes, mas cada uma com seu significado. De certo modo, cada dia deixamos algumas coisas para trás e também é verdade que sentimos muito elas. Em alguns nós não chegamos nem perto da alça, e rezamos para não chegar, mas é na hora que chega nossa vez que a gente não tem certeza do que fazer. A única coisa que podemos esperar, é que tenhamos nos desprendido o suficiente, que o elo não se parta por completo, e que tenhamos muita sabedoria para lidar com as responsabilidades. Cada caixão é um caixão diferente, mas todos têm histórias. Sempre vamos sentir falta.

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