domingo, 2 de agosto de 2020

Nostalgia

    Olha, esse texto não é sobre mim. Esse texto não é sobre nós ou sobre o tempo que passamos juntos. Esse desabafo é sobre algo que martela a todo tempo na cabeça e que por diversas vezes o ouvi sobre outras condições. Esse texto é sobre a nostalgia, ou melhor, sobre os efeitos da nostalgia. Aqui não vou citar nenhum autor, eu vou somente dar voz a alguém que eu não consigo mais manter calado. Coração, pode falar agora.

    Um mês de uma das decisões mais difíceis da minha vida, a gente consegue colocar em ordem quase que exatamente todas as conclusões do que levaram a tal decisão. Sempre irão ficar alguns questionamentos como os “E se?” da vida. 


“E se eu tivesse feito isso?”; 

“e se eu tivesse relevado aquilo?”; 

“e se a gente tivesse conversado mais?”. 


    Essas respostas não são nada mais do que o seu cérebro tentando te trazer perguntas que, na real, nunca serão respondidas, a menos que inventem uma cápsula do tempo. O que fica na real pra gente entender é basicamente o “e agora?”.  Essa é a pergunta mais safada de todas e, ao mesmo tempo, a que traz pra gente um medo absurdo, simplesmente porque também não temos o poder de prever o futuro. O que sobra é só eu, meu gato e meu computador que está trabalhando neste texto nesse minuto. É o que a gente chama de presente, palavra de duplo sentido, mas que nesse momento a gente não tem força pra classificar como uma coisa necessariamente boa, ou melhor, como algo que estamos ganhando. Vamos nos ater a essa palavra pela simples conotação do agora. O que podemos dizer disso é simples: Por hora, o agora dói.

    Dói no primeiro contato com amigos, que quando nós decidimos que não ficaríamos mais juntos, tínhamos até uma vontade de contar toda a história do que aconteceu, mas a cada vez que eu contava, vinham todas àquelas lembranças dos “e se?”. Um mês depois a gente usa cada vez menos palavras pra definir o que aconteceu. “Ah, não deu certo. Foi a convivência”. E toda uma história é resumida em uma frase. É justificável ao entender que cada vez que toda a história é contada o coração machuca um pouco e, por isso, quanto menos palavras usadas pra descrever um fim que a gente nem entende tanto assim – e por isso dói tanto – melhor é pra gente parar de se automutilar. Dói o olhar de pena das pessoas com aquele “Vocês eram tão lindos juntos”, “Tínhamos vocês como exemplo”, ou “você vai ficar bem” estampado no rosto. É duro encontrar forças pra sorrir nesses momentos e dizer “tá tudo bem”, sendo que nós sabemos que não está. E não pelo fato do término. É pela nostalgia. A nostalgia dói quando você olha pra sua playlist do Netflix e vê mais comédias românticas nos recomendados do que normalmente você assiste afinal, sua conta estava na TV do quarto, onde ela assistia. Logo você se vê passando rápido pelos títulos, porque isso já te trouxe lembranças. Dói quando seu filme de comédia favorito é o mesmo dela e que as piadas do filme, por mais engraçadas que sejam, já não te fazem rir. Eu estou chorando agora. 


Vacation (filme) – Wikipédia, a enciclopédia livre

    Você também passa a não gostar de escutar àquela banda que você sempre colocava no carro pra ela. A vontade era de escutar outra coisa, mas fazer segunda voz com seu parceiro é pra poucos. Aí até a vontade de escutar o que você queria, passa, e qualquer música serve. Toda música vai acabar fazendo sentido de um jeito ou de outro. Ou vai falar dos momentos bons em que a gente teve, ou de momentos ruins, como o que estamos vivendo agora. Dói de saber as comidas que você nunca mais vai comer. Algumas eram receitas dela, outras adaptadas e outras ainda, que pedíamos pelo aplicativo. Umas especialmente em dias que as coisas não estavam bem ou, em comemoração a algo que tinha acabado de ficar bom. O jeito é eternizar isso na sua memória porque gosto infelizmente a gente não consegue lembrar. Pior pode ser a frustração da comida não ter o mesmo sabor.

    De pouco a pouco você vai percebendo que nós, no presente, somos nada mais do que pessoas sem identidade afinal, toda nossa personalidade se misturou ao longo dos anos e não sabemos mais o que é meu e o que é da outra pessoa. Nos sobra o único recurso de fazer um “reset” em nós mesmos pra redescobrirmos coisas novas. O mal em morar numa cidade pequena é que você está fadado a se deparar todos os dias com as coisas que, só faziam sentido, quando você dividia com outra pessoa. Todo esse tempo junto foi capaz de significar muitas coisas ao nosso redor, desde o jeito que a gente arruma a cama, até aprender a dormir de pijamas. E não, não adianta dormir sem pijamas, por que você já foi convencido de não usar as roupas de ficar em casa pra dormir. É um beco sem saída onde a voz que ecoa é a voz que sempre esteve contigo. Não mais. 

    O presente vira uma grande adaptação de ter como seu guia, sua própria voz ecoando sem parar na sua cabeça numa falha tentativa de respostas a perguntas que você mesmo se fez. Parece loucura, não é? Mas quando se está sozinho, o cérebro cria essas peças pro coração se enganar tentando dizer “Ei, você não está sozinho”. O coração só parece ser bobo, mas uma hora a ficha cai e a gente percebe onde está.

    Já é de noite, é hora de dormir e você já não precisa mais fazer silêncio na hora de entrar no quarto. Não tem ninguém pra ser acordado. Não tem beijo de boa noite. Não tem “Dorme com Deus”. Não tem nem ninguém puxando sua coberta no meio da noite. Só tem nós mesmos e o agora. Se o presente virá ser um presente, nós esperamos que sim. Porque quando você está pronto pra essa fase da vida, esses pequenos detalhes tem um peso imenso na sua rotina. Não será a mesma pessoa. Não serão os mesmos costumes. Mas tem que ser alguém. Esse é o momento em que você suplica pra nostalgia parar de doer, É a hora que você quer transformar a nostalgia apenas em lembranças, sem tons. Acho que é nesse momento que a gente descobre que finalmente a gente se desvencilhou por completo do outro e finalmente pôde se encontrar.

    Parece que encontramos a solução, coração. Infelizmente pra nós, é o tempo. E isso ainda vai doer. Não te prometo uma cura rápida. Que doa. Que nós possamos sentir tudo que há pra sentir. Até o dia que parar de doer. Até o dia que fizer sentido que, o que aconteceu, teve que acontecer. Se eu espero que esse dia seja logo? Não, eu só espero que ele chegue. E que seja bom pra nós.

    Esse texto não é sobre mim. Esse texto não é sobre nós, mas sobre o tempo que não passaremos mais juntos.


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